terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Cancelar 2020?

 

    De todos os desejos, vontades e sonhos que ouvimos das pessoas neste fim de 2020, a frase que mais se destaca é: "Cancele 2020" ou "Acabe, 2020!"... 

    Mas será que precisamos cancelar ou até mesmo esquecer tal ano? 

    Incontestavelmente foi um período duro, complicado e triste para muitos. Todos sentimos, de alguma forma, as consequências de um ano desastroso. Mas cancelar um tempo vivido não é assim tão fácil nem necessário, afinal, experiências, por mais dolorosas que sejam, podem nos fazer crescer se, de fato, quisermos. 

    

    O que devem, de forma urgente, ser canceladas ou destruídas são outras tantas coisas. 

    Ao mudar o último algarismo do ano em curso, temos uma oportunidade para começar de uma forma diferente, aliás, cada vez que o sol se põe no horizonte, ele anuncia uma nova chance de mudança, que virá com seu nascimento.

Se for para acabar, que seja a desesperança, que não nos permite dar o próximo passo. 

    Que cancelemos a hipocrisia, pois ela nos mostra um ser humano de aparências, sem autenticidade, sem verdade naquilo que diz e faz; cria um abismo entre o que nos é mostrado numa tela com o que se é, de fato. 

    Que se acabem os interesses que nos aproximam uns dos outros, mas permitem que a distância seja absurdamente visível na convivência, na forma de agir, nas atitudes nada acolhedoras. 

    

    Que sejam canceladas algumas formas de vivenciar a fé, a devoção, a crença, pois algumas delas nos afastam do que é humano numa tentativa de nos aproximar de um "divino" que não abraça nem se compadece do outro. 

    Que se acabem os discursos cheios do nome de "Deus", mas vazios de amor, revelando-nos uma outra face: a do preconceito, do egoísmo, do desafeto, da separação.

    Que sejam cancelados os abusos de autoridade, os falsos líderes e profetas que, em vez de criar laços, erguem muros, propagam mentiras, exaltam as armas, disseminam ódio... 

    Canceladas sejam as máscaras, aquelas que ficam por detrás das de tecido, pois o que conta é a verdadeira face, com todos os traços, com todas as marcas criadas pelo tempo e pelas experiências. 

   

    Cancele o coração cheio de mágoas e se abra ao perdão como, efetivamente, deve ser! Que se acabe o medo de pronunciar as frases "Eu errei", "Eu te perdoo", "Eu te amo"...

    Há muito o que cancelar, bem mais que fingir que o ano de 2020 não tenha existido! 

    Cancelemos o que, de fato, é necessário. Só assim poderemos viver algo novo a partir da virada do ano e do nascer do sol...

 

Imagem: https://pixabay.com/pt/illustrations/cancelado-pare-atividade-vazio-4896470/

sábado, 1 de agosto de 2020

A singeleza do telhado

É evidente a segurança e são grandes as vantagens em morar numa casa com laje ou forro, seja de qualquer espécie, mas não se pode negar e deixar de falar da nobreza que é poder experienciar a vida debaixo de um teto feito com telhas, principalmente à moda antiga, com portas e janelas das mais simples.
É claro que, em algumas situações, os problemas são inevitáveis. E como são!
Você já passou pela experiência de, no meio da madrugada, durante o seu melhor momento de sono, sentir algumas gotas frias vindas do teto? Já teve que se levantar altas horas da noite para pegar um balde ou uma bacia e colocar debaixo de uma goteira, a fim de que não molhasse mais o piso, o chão da casa? Enfrentou uma chuva de granizo forte, escutando o barulho de cada pedra de gelo batendo nas telhas? Se a sua resposta for não, repito o que costumamos dizer: "nem te conto!" 
Tudo isso é a parte ruim. Vamos para a outra...
Da mesma forma que o buraco de uma telha pode fazer gotejar, ele também deixa passar os raios do sol, que reluzem no chão da casa. Dá para saber a hora exata, observando, a cada dia, a troca de lugar de sua marca. Na falta de um relógio, por quê não?
Acordar acompanhando o clarear do dia é, também, uma das gostosas sensações que nos brinda o telhado. E aí a gente vê o brilho do amanhecer entrando pelas suas frestas.
O cheiro do café que acabou de ser passado no coador feito de pano, costurado, muitas vezes, pela própria mãe - e por isso, a ela serei eternamente grato -, que chega aos quartos, passando pelas áreas que ficam entre o fim da parede e o telhado. E junto com o aroma do café, o cheiro da madeira queimada no fogão à lenha. 
E, se uma tempestade pode causar danos devido à fragilidade do telhado, a chuva mansa soa como uma canção de ninar. Dá para ficar horas observando-a cair sobre as plantações, sentados ao pé da porta, na varanda, ou aproveitar a oportunidade única  de poder desfrutar de um sono bem gostoso, embalado pela melodia dos chuviscos...
E assim Deus vai nos moldando e escreve a nossa história! Uma estrutura pode ser firme, construída com a mais alta tecnologia, mas são as coisas mais simples que nos farão experimentar a grandeza do Criador!




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Quando mudamos...



Mudamos quando olhamos à nossa volta e somos capazes de optar por outros trilhos que não os usuais.
Mudamos quando percebemos que a vida alheia é, de fato, do outro, e sua particularidade não nos interessa.
Mudamos ao entender que as crises são necessárias para o nosso crescimento. E como crescemos a partir delas!
Mudamos quando compreendemos que o valor das pessoas não habita na função exercida ou no cargo que ocupa, mas sim na maneira como é capaz de gerir tudo isso.
Mudamos ao abrir os olhos para o mundo e perceber que há múltiplas formas de crença, e o importante é o respeito diante do que nos é diferente.
Mudamos quando valorizamos o tradicional, mas damos espaço e boas-vindas ao que é novo.
Mudamos ao olhar para o ser humano e percebermos que ele é dinâmico, muito além daquilo que nos enquadra num mundo tão fechado e cheio de regras escravizantes.
Mudamos quando somos capazes de fazer escolhas por nós mesmos e não para satisfazer a outros.
Mudamos quando permitimos, quando queremos viver de forma intensa.
Mudamos...




Imagem: Imagem: https://cdn.pixabay.com/photo/2018/04/11/08/59/rails-3309912_960_720.jpg

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Fale-me de você

(Sugiro que ouça, durante a leitura, o som que está no vídeo ao fim do texto. Faça uma leitura lenta)

Fale-me de você!
Vamos, diga-me algo sobre você. É preciso que isso aconteça: que pare um pouco e fale-me a seu respeito.
Conte-me como anda sua vida, suas sensações.
Não. Não quero saber sobre o valor que pagou pelo ingresso naquele evento. Nem mesmo me interessa discursar a respeito da cor que deveriam ter pintado o prédio da esquina. Também não nos distraia falando sobre futebol, cozinha, política, religião...
Quero ouvir sobre você.
Vamos juntos sentar naquele banco, ao som do movimento da vida, encarando-nos mutuamente, sem deixar que os olhos passeiem por sobre os ombros ou que, por um descuido, a nossa atenção se perca.
Quero ouvir sobre sua vida, das coisas que te fazem bem, das que te completam. Conte-me se o seu sentimento é de satisfação ou tristeza. O que me importa não são os motivos e sim a sua verdade, a pureza ao me falar de você.
Permita-me escutá-lo e permita-se confiar em mim. Diga-me se conquistou o que andava buscando. Se não, também não importa. O que conta é a lição que tirou de tudo aquilo que tenha vivenciado. Até porque corremos o risco de aprender mais com as derrotas que com as vitórias.

Fale-me de você. Pare. É necessário que deixe um pouco de lado as outras coisas e converse comigo. Por que a pressa? É e será sempre assim? Até quando? Não olhe para o relógio. Ele não importa agora. Olhe em meus olhos e me conte. Pode ser por meio do silêncio. Às vezes ele fala mais que muitas palavras.
O mundo anda tão cheio de coisas, tão lotado de pessoas com pouco espaço para sentimento, com pouco tempo para ouvir e escutar.  
Tudo bem? Como anda seu coração? O que tem sentido?
Fale-me de nossa amizade, de sua família, de seu cachorro. Você tem cachorro?
Preciso ouvir você. Ou será você que necessita tanto falar?
Fale-me de você!




Imagem: pixabay.com


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Escolher feijão, uma tarefa instrutiva

Quem já teve o prazer de "escolher" feijão ou, pelo menos, viu alguém a desempenhar tal tarefa, pode entender aonde eu quero chegar. É uma terapia e tanto, é instrutivo, além de ser necessário, claro.

Cada um tem sua forma de fazê-lo. Geralmente colocam-se os grãos sobre uma superfície plana, uma mesa, talvez, e vai puxando aos poucos. Aqueles que não prestam, de forma alguma - os podres, os corroídos, as pedras e afins - são separados num monte à parte para serem descartados. A vasilha, a gente deixa no colo para, quando escolhidos, serem nela depositados.

Dentre os que ficam, há alguns que nos dão a impressão de inutilidade por serem diferentes quanto à cor, tamanho, fragilidade e até mesmo pela aparência enrugada. Mas são bons. Farão a mesma função que todos. São feijões!


Tais quais são as nossas escolhas. É preciso separar aquilo que não presta, que pode nos fazer mal ou até mesmo tornar-se pedra no caminho. Mas muitos confundem: afastam-se do que é diferente, pelo simples fato de não possuírem as mesmas “medidas” consideradas normais por grande parte. Esquecem que não somos feitos a partir de um único molde, e que muitas circunstâncias podem trazer consigo detalhes que farão com que as diferenças germinem, e assim, cada vez mais, o que possuía uma forma única apresenta-se com diferentes rostos, tamanhos e cores e tantas outras.

Isto não é ruim. É enriquecedor e nos ajuda a abrir os olhos para os mais diversos horizontes, afinal, somos seres dinâmicos, não formatados. A beleza da vida está em abrirmo-nos às possibilidades, nunca em nos fechar dentro de um casulo e não querer enxergar que a transformação pode acontecer com o nascer das asas.

Separemos os feijões. À parte ficarão os que não prestam, não por suas alterações, mas porque já estão podres ou são simplesmente detritos. Mas aqueles que têm características diferentes, deixemos. São feijões e não deixam de sê-los. O tempero e o acompanhamento é que darão o toque final. E... no momento certo (ou não), todos irão para a mesma vasilha.


domingo, 18 de junho de 2017

Olhares...

Eu gosto do olhar!

Eu gosto da verdade que os olhos revelam.

Eu gosto dos olhos...

Eu gosto do levantar das sobrancelhas quando o encontro é surpreendente e inesperado.

Eu gosto dos cílios carregados de restos de lágrimas que, por tantos motivos, trazem uma história alegre ou triste...

Eu gosto do olhar!

Apaixono-me pelos olhos que se direcionam ao mais necessitado, ao que carece de atenção e amor e carinho, e abraço.

Gosto dos olhos que se voltam para o Criador, que reconhecem a presença de um Outro que se fez humano e que se aproxima e se deleita com aquilo que nos é tão particular e mais humano ainda...

Eu gosto do olhar quando carrega um segredo e sabe nos deixar curiosos.

Eu gosto dos olhos que transmitem paz, que me deixam seguro ao dizer, sem a necessidade de pronunciar: “Confie em mim! Segure minha mão e caminhe comigo”.

Apaixono-me pelo olhar tímido que, lentamente, acaba por se mostrar o mais acolhedor e se derrama em sentimento puro.

Eu gosto dos olhos da criança a pedir para brincar e se atirar na lama juntos, daquela que acompanha um contar de histórias movendo os olhos para cada acontecimento.

Eu gosto do olhar profundo, mas que se apresenta na simplicidade, e do olhar que arrebata e exala o mais intenso brilho, a mais estranha e desejável paixão.

Eu gosto dos olhos, apaixono-me pelo olhar...





Imagem: pixabay.com

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Aproximar-se

Numa de minhas viagens para o interior de Minas, lugar onde meus pais moram e, claro, onde nasci, fiquei a observar algumas casas, dessas que ficam em meio a árvores, e distantes, lá no pé da montanha. Foi fácil imaginar o jeito gostoso de como deve ser a vida ali, naquele canto aparentemente de paz. Isso mesmo, aparente, pois uma de nossas manias é pensar que a beleza do lugar, visto de longe, livra-o de ter seus problemas típicos.
Demoramos para entender que contratempos e dificuldades existem em qualquer lugar, que ali a vida pode ser dura, afinal as muitas facilidades de quem vive numa zona urbana, não encontramos lá no pé da Serra ou no meio do Cerrado. A recíproca é também verdadeira.

É preciso aproximar-se para conhecer, para ver de perto e até mesmo fazer a experiência com quem está distante. Pode ser que tenhamos boas surpresas, mas pode também não ser. Tal qual o drama do palhaço que, por fora transborda de alegria, mas é capaz de esconder uma dor interna, incompatível com os montões de cores e acessórios que o fazem engraçado.
Olhar tudo desde a comodidade do nosso lugar e tecer apontamentos que julgamos certos pode ser perigoso.
É necessário que nos aproximemos; que deixemos de analisar as coisas e as pessoas a partir daquilo que, para mim ou para o meu grupo seleto, é bom ou ruim.
A beleza pode vir da paisagem, mas a realidade está além. Aproxime-se e entenda!




Imagem: http://blog.chicomaia.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2012/12/118.jpg

terça-feira, 13 de junho de 2017

O valor de uma base sólida

O jovem universitário, no assento do ônibus, lia suas anotações com determinação. Supostamente ele faria uma avaliação assim que chegasse em sua Universidade. Muitas delas estavam sinalizadas com marca-texto, aquele de cor verde-limão. Bom, esse detalhe não é lá grandes coisas.
Como eu estava em pé, porque acredito que qualquer leitor saiba: numa cidade como São Paulo, no horário de pico, é premiado aquele ou aquela que consegue um lugar ao sol, digo, um assento livre dentro do ônibus. Já tal pormenor é grande coisa, apesar do paradoxo entre os termos, pois é uma situação angustiante que os trabalhadores enfrentam todos os dias, mas voltemos ao jovem universitário.
O fato de ele estudar numa situação dessas é muito comum, mas o que despertou a minha atenção foi que, entre as palavras de suas anotações, escritas à mão – o que hoje em dia é raro – vi a expressão “capitalismo” escrita com “p” mudo: “captalismo”. E não foi uma vez. Vi que todas as vezes que aparecia o termo, a grafia era a mesma. Ou ele absorveu tanto a ideia de tal sistema, a ponto de “economizar” a vogal “i”, sei lá, por ser adepto da ideia de que é preciso guardar para que se tenha mais no futuro; ou, o que me parece ser, infelizmente, a mais pura realidade, o universitário escreve da maneira que lhe convém, afinal, o adjetivo já diz tudo: jovem universitário. Ele já o é por excelência. Não é necessário saber que a palavra “capitalismo”, tão usual, não é escrita com “p” mudo.
A etapa mais importante em uma construção, nem é preciso perguntar a um engenheiro ou pedreiro, é a base. Tudo se sustenta a partir dela. Quanto mais firme, mais seguro será o edifício ou o sobrado ou a casa. Corre-se o risco de um desmoronamento ou de uma rachadura acontecer durante ou depois que já estiver edificado. A educação é assim. Seja feita uma boa base. Exija de cada etapa o que convém, senão depois a gente pode se deparar com tais desmoronamentos: o perigo de escrever uma palavra tão usual com uma economia desnecessária.

Não pude observar mais, pois um dos assentos ficou livre para mim. Se eu não o ocupasse, correria o sério risco de chegar em meu local de trabalho já cansado por ter feito a entediante viagem em pé. Esse mundo “captalista” é assim mesmo!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Talvez...

Talvez ele deveria ter esperado, em algumas situações, para experimentar o quanto vale a paciência.
Talvez se ele tivesse aproveitado um pouco mais a companhia de algumas pessoas tão significativas em sua vida, numa simples conversa que pudesse ter durado mais tempo; naquele singelo partilhar de um pedaço de bolo preparado com tanto carinho para recebê-lo; num desses encontros para jogo de cartas ou roda de músicas embaladas pelo toque de um violão; naquele esperar do ônibus enquanto não acontecia a despedida tão dolorosa, ou na chegada, quando o aguardava tão carinhosamente e de forma ansiosa, pois o bom do momento era poder ouvir a voz e olhar nos olhos um do outro. Quem sabe assim ele teria se alimentado de maneira a satisfazer​-se da companhia e do afeto, diante de pequenos atos que se tornariam grandes, memoráveis, agora transformados em saudade...
Talvez tenha faltado olhar para outras pessoas. Quem sabe tivessem tanto para partilhar quanto aquelas a quem ele deu mais atenção. Dessa forma teria aprendido a arte do olhar além, do acolher aquele que, para ele, parecia diferente.
Talvez ele deveria ter trocado aquele presente que custara tão caro, pelo demorar de um abraço que exigiria dele somente a proximidade... 
Talvez ele seria mais coerente consigo e com os outros, se tivesse guardado, num lugar bem protegido, aquelas cartas que eram tão preciosas, mas que, por não ouvir seu coração, destruiu. Pode ser que tenha perdido a oportunidade de aprender o quanto é valioso relembrar e contemplar aqueles papéis, aquelas letras com particularidades e que, um dia, o deixaram ansioso ou surpreso ao receber.
Talvez... quem sabe... mas o que conta é poder, em tempo, perceber o lado da vida que significa muito.
Talvez... 

sábado, 22 de abril de 2017

Proponho a você...

Há algum tempo as redes sociais vêm sendo bombardeadas dos tais “desafios”. E, diga-se de passagem, há para os mais diversos gostos.
Entretanto a situação está ficando tão chata e perigosa, que a vida também está em jogo. Aliás, a brincadeira ganhou um destaque que não é seu, afinal, estamos falando de “vida” e nada é mais precioso.
Não quero, aqui, discorrer sobre os tais provocações, sejam essas narcisistas ou mortais.
Gostaria de fazer, não um desafio, pois este termo pode gerar competição, e quando lidamos com pessoas, competir não fala mais alto que o afeto, o altruísmo, a parceria...
Proponho visitas, encontros, leituras, abraços, conversas, enfim, tudo aquilo que nos distancia das máquinas e de quaisquer meios tecnológicos.
Vá a uma festa, mas proponho não postar qualquer foto que seja em redes sociais; proponho marcar com os amigos uma visita a alguém que necessite, ou que você mesmo seja visitado, mas que não publique nada a respeito, apenas conviva e sinta como é bom aquilo que nos aproxima dos outros.
E te proponho também: olhe o mundo, abra um livro, prepare um café, arrume a sua cama e sinta o prazer de fazer as pequenas coisas observando os mínimos detalhes, pois esses é que nos tornam grandes e autênticos.
Não é necessário deixar as redes sociais. Basta permitir elas não se tornem o melhor de sua vida. Há pessoas e lugares precisando de você, e vice versa...



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A importância do abraço

Todas as vezes que me despedia de minha avó paterna, ao terminar um longo período de férias, ela me dizia: “Deixa eu te dar um abraço. Pode ser o último. Não sei se nos veremos da próxima vez”. Era algo que me deixava inquieto, ao que eu respondia: “Não pense dessa forma, vovó”. Pois bem, passaram-se os anos e, com uma enorme tristeza, recebi um telefonema avisando que ela havia partido para a eternidade! O que minha avó dizia sempre, tornou-se verdade um dia, por mais que eu soubesse e por mais que eu não quisesse.  
Quero falar do abraço. Percebamos como nos faz fortes ou o quanto é significante em nossas vidas toda vez que recebemos ou damos um abraço em alguém. Na chegada ou na partida, na conquista ou na derrota, no amor ou na dor... ele é sempre bem-vindo. Falo do abraço forte, verdadeiro, acolhedor. Aquele que chega a estalar os ossos ou que faz arder o coração.
Como são fortes as imagens de abraço. Elas nos dizem muito. Proponho uma experiência da qual eu pude vivenciar há alguns dias, de maneira inesperada, mas que me despertou ainda mais para a importância do abraço: faça uma busca na internet. Digite os termos: “Papa Francisco abraço”. É um convite à autenticidade humana, à ternura de uma pessoa que se entrega ao abraçar e ao ser abraçada. Isso também é fundamental: a entrega de ambos. Os gestos de Francisco nos dizem muito e faz com que nosso olhar se volte para atitudes realmente cristãs e humanas. É imprescindível que partamos de gestos simples, mas que nos levem a um compromisso com uma realidade a ser transformada. Não vale a pena ficar olhando para os céus a imaginar como são as asas dos anjos, o trono do rei ou a coroa da rainha. Nossa autenticidade parte de um olhar que lanço ao outro que me pede: “abraça-me”. E isso já será suficiente para que a compaixão comece a brotar.
A cura para muitas feridas está no abraço. Viva de forma plena. Abrace pela primeira vez, pela segunda e por tantas e tantas vezes necessárias. Não espere o dia errado, a hora errada, pois seus braços precisam de um encontro e seu coração pede por esse gesto tão simples e tão pleno. A você, o meu abraço!



Imagem: Minha avó, Umbelina, citada na crônica.
Créditos: Érica Leão Costa

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Pai também chora...

Podemos passar a vida inteira sem ver o choro de nosso pai, mas pai também chora.
Se não o expressa é porque certa "normalidade" o proibiu por tempos e tempos, e caímos no erro de achar tudo isso muito comum.
Pois saiba: seu pai já chorou um dia... ou tantos mais.
Chorou quando recebeu a notícia de que ganharia um lindo presente, talvez um o mais significativo e surpreendente, chamado: filho.
Quando ouviu, pela primeira vez, o choro daquele pequeno rebento.
Quando, ao ouvir a palavra "pai", os pelos se arrepiaram.
No momento em que viu o semblante de seu filho triste por estar doente ou por algum outro motivo - certamente faria tudo para não vê-lo assim, nunca.
Pai também chora...
Ao receber aquela primeira homenagem, dessas de escola ou daquelas que ensaiamos dias a fio para dizer o quanto ele é especial. 
Chora também por não poder estar presente nessas ocasiões e em tantas outras, afinal, para muitos, o trabalho não permite que estejam.
Ele chora quando o filho o faz chorar por alguma mágoa ou porque a cria foi para caminhos indesejáveis, perdidos.
O pai chora pela perda da vida de um filho, por não poder abraçar aquele que, há muito, era seu maior presente.
Pai também chora...
Porque ele ama, simplesmente por isso. Porque ele cuida.
Ele pode até não deixar derramar uma gota de seus olhos, mas por querer mostrar-se seguro e forte, ela é derramada em seu coração.
Reconheça que, apesar da ausência da lágrima, o interior de seu "velho" é puro sentimento, por mais duro e rigoroso que pareça.
Chore com ele e por ele também. Chorem juntos...
Isso se chama vida, sensibilidade, amor de pai.
E... se ele já não está mais aqui, se já terminou sua caminhada e trajetória aqui na terra, chore e deixe que o pranto se transforme em PRESENÇA.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Qual é o mistério da vida?

Na tentativa de encontrar uma resposta, ele mergulhou numa infindável pesquisa para desvendar qual seria, de fato, o mistério da vida. Passou por diversas áreas do conhecimento. 
A matemática, embora mostrasse que existem números perfeitos, não lhe trouxe um resultado exato, afinal ele não queria saber de decimais nem de sobras. Sua expectativa era uma explicação exata.
Com a ciência pôde adquirir um conhecimento profundo do que seja a vida. Seus horizontes foram ampliados, mas nada que significasse concretamente aquilo que buscava.
A tecnologia mostrou que o homem pode ir longe; que o ser humano é capaz de operar as mais complexas máquinas até mesmo para seu próprio bem - ou mal - , mas lhe trouxe um certo ar estático, o que o fez perceber que o mistério estava além de toda aquela revolução maquinária, robótica e virtual.
A religião trouxe-lhe diversas formas de ver a vida, múltiplas maneiras de experienciar algo maior, mas ele não se contentou, pois estava certo de que o mistério partia de um só lugar e poderia ser explicado somente de uma mesma forma.
Enfim, depois de tanto esforço, de tanto quebrar a cabeça no anseio de uma resposta, desistiu. Seguiu seu caminho. 
Um dia, sem nem mesmo lembrar da inquietude diante de sua busca, caminhava pelas ruas de sua pequena cidade. Eis que viu uma criança a esconder um objeto, com o maior cuidado para que as outras não o vissem. Em seguida, vieram outras que procuravam incansavelmente por algo. Ele, na ânsia de poder ajudar perguntou a um deles: "O que vocês procuram?", ao que a criança respondeu: "O tesouro. Estamos brincando de caça ao tesouro". "Eu sei o que é e onde está. Posso lhe mostrar", afirmou o rapaz. De maneira segura, o menino lhe disse: "Obrigado, mas não pretendo saber. O gostoso da brincadeira está em procurá-lo".
Ele deu-se por satisfeito. Não precisou fazer mais pesquisas, nem ficar incansáveis noites sem dormir para obter a resposta que tanto queria sobre o mistério da vida. Desde aquele dia, repetia sempre a frase da criança: "O verdadeiro sentido está em procurá-lo". 

terça-feira, 19 de julho de 2016

Persista!

Quase todas as manhãs, antes do horário de me levantar, ouço o barulho do motor de um carro. Insistentemente o motorista faz várias tentativas para ligá-lo. Demora, mas ele não desiste, e o ruído incomoda não só a mim, mas a todos que moram na vizinhança.
Certo dia, notei que ele foi mais insistente. Levou muito tempo para que conseguisse. Entre tentativas e vibrações do veículo, havia algumas pausas. Mas a persistência o levou mais longe até chegar onde queria: o motor do veículo, finalmente, funcionou. Obviamente o incômodo também foi maior.
A vida, mais uma vez, ensinou-me algo: persistir pode até incomodar, mas é a chave para o alcance do objetivo. Quantas vezes deixamos os sonhos de lado por medo de incomodar ou até mesmo por achar que o resultado talvez devesse vir mais rápido? O que seria da ciência, da tecnologia e de tantas outras áreas, se não fosse a persistência diante dos erros com as experiências?
Talvez o dono do carro pudesse trocá-lo, afinal, existem modelos mais modernos e que resolveriam o problema, mas o julgamento num momento desses, sem conhecer, de fato, os porquês, não nos cabe. Podem existir inúmeros. Quem sabe o veículo seja, para ele, mais que uma simples máquina. É que, com o tempo, as coisas podem se tornar sacramentos, afinal, aquilo fez e faz parte de uma história.
Por isso, persista! Muitos apresentadores, atores, cantores, enfim, se tivessem desistido no primeiro “não” que receberam, talvez nem fossem tão conhecidos e nem estivessem no lugar e palco merecidos. Quantos talentos perderíamos se a persistência não falasse mais alto? Quantos corações não estariam feridos não fosse a persistência do perdão?
O incômodo sem objetivo é invasivo, destruidor, mas quando há uma conquista como propósito, é válido. Mesmo que tenha que fazer pausas, silenciar-se por alguns minutos, incomode, mas persista! 




sexta-feira, 1 de abril de 2016

Alpendres


Lá havia um banco feito de madeira, não muito alto tampouco grande, daqueles que têm um triângulo vazado em cada ponta e que fazem a parte dos pés; três canos de ferro colocados entre a mureta e o telhado como sustentação e, ao mesmo tempo, era a ornamentação daquele tempo. Chamávamos de “alpendre”, uma espécie de recepção antes de entrarmos na sala da casa. Era ali que brincávamos, onde os adultos se sentavam para conversar e observar a parte externa da casa, o entardecer, principalmente. As crianças brincavam de pique-pega ou simplesmente de se entrelaçarem nos canos do alpendre. Um cheiro de café vinha lá da cozinha, o que justificava a ausência da dona da casa ali, naquele momento. E, no ponto alto da conversa, das brincadeiras, um prato esmaltado e copos tipo americano eram depositados na mureta junto a uma garrafa do delicioso café.
Coisas que a vida na simplicidade nos proporcionava e que, para alguns, ainda proporciona. Voltemos aos alpendres, mesmo que as estruturas das casas hoje não nos permitam. Temos sempre sede desse encontro de fim de tarde, das brincadeiras que nos tiram da acomodação e nos devolvem o contato com o natural. O nosso coração precisa ter um espaço onde possamos acolher as pessoas de uma forma especial, onde tenhamos todo o tempo do mundo para sentarmos no banco de madeira (ou não), conversar, saborear um café e poder observar as crianças a correrem livremente sem medo do amanhã ou da esquina ou da clausura. O alpendre, embora aberto, é seguro, lugar para se abrigar da chuva ou até mesmo para observá-la; é o lugar do encontro e da acolhida. Entrar na casa, depois disso, chama-se confiança.

domingo, 31 de janeiro de 2016

"Jesus te ama" é verbo

      Pode parecer um tanto estranho ou contraditório àquilo que sempre vivi, principalmente para quem me conhece há muito e de maneira mais profunda, mas quero falar da frase: “Jesus te ama”. Na verdade, não exatamente da expressão, mas da forma como é utilizada e pronunciada por muitos.

É muito comum, em alguns momentos, chegar uma pessoa, olhar em nossos olhos – ou não – e pronunciar num tom de voz quase orante “Jesus te ama”. Utilizo aqui o termo “quase”, pois percebo uma falta de firmeza e mesmo de verdade por parte de alguns ou da maioria que a repetem exaustivamente. É preocupante que saiam por aí a dizer por dizer tal frase.
Vamos à Bíblia. Se prestarmos atenção, Jesus não abusa da expressão amor enquanto substantivo. Quando a pronuncia, traz o sentido de verbo, pois este precisa de ação. No evangelho de João, ao perguntar para Pedro se ele o ama, vem, de imediato, o pedido do mestre: “Cuide de minhas ovelhas” (conf. Jo 21, 15). Aos discípulos, na última ceia, disse: "Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês" (Lc 22,20). É como se ouvíssemos de Jesus: Eu entrego a minha vida por vocês, e não simplesmente “Eu te amo”, sem complemento ou compromisso. Mais importante que dizer, é ser, é fazer. A palavra desaparece como uma fumaça. Precisamos ter atitudes. Dizer “Jesus te ama” deve partir do coração e do testemunho. Muitas vezes nem é necessário que se diga. A nossa ação falará por nós.
Numa sociedade que vive do egocentrismo em meio a tantos “selfies” desnecessários, narcisismos que nada nos faz crescer enquanto seres realmente humanos, a frase “Jesus te ama” ou até mesmo “Você sabe que eu te amo”, ou qualquer coisa parecida, se não vem carregada de compromisso e de cuidado pelo outro, de entrega, de verdade, não fará sentido e não merecerá qualquer “curtida” sequer que seja “compartilhada”.
Portanto, ao pensar em pronunciar uma expressão que provoque impacto ou que, de fato, cure qualquer ferida, primeiro seja protagonista. Creia no amor de Jesus, entenda-o e vivencie-o primeiro. Aqueles que passavam e nada faziam também falavam do amor de Deus para as pessoas, mas somente o “samaritano” que passou, parou e acolheu aquele que estava ferido é que viveu esse amor e pode falar dele. É preciso dizer “Jesus te ama”, mas de uma outra forma: “Jesus entregou a vida por nós”. Se alguém não entender que essa foi a maior forma de amor...




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Varrer o "terreiro" (quintal)

Uma das tantas coisas ensinadas por minha mãe, na infância, foi a de varrer o “terreiro” (quintal da casa) na sexta-feira. Ela dizia para limparmos nesse dia, pois no sábado, “Nossa Senhora” passaria por ele e nos faria uma visita. Assim, íamos ao pasto colher galhos de alecrim, um tipo de capim cheiroso e eficiente para tal finalidade. O próprio ato de sair de casa para buscar os ramos já era motivo de contentamento, afinal, crianças se divertem e trazem um entusiasmo enorme quando são convidadas a desempenharem uma tarefa importante e educativa junto a um adulto. Isso as faz sentir úteis, respeitáveis.

Quando o terreiro estava limpo, um ar leve corria por todos os lados e trazia um perfume característico daquele tipo de mato utilizado na limpeza. Naquele momento, a minha impressão era que tudo estava bom, pronto para uma grande festa, e que minha casa era a mais linda de todas, pois o quintal estava limpo, sem qualquer sujeira e empecilho. No sábado, pela manhã, um frescor tomava conta do espaço e podíamos ver bem desenhadas as trilhas por onde passávamos, os espaços embaixo das árvores detalhados pelo rastro da vassoura feita de alecrim. Gostávamos de correr, de colocar nossos carrinhos de brinquedo naquele chão limpo e de ficar ali à noite, sentados sobre um banco feito por um tronco cortado, a conversar até a hora de dormir. Se “Nossa Senhora” passou ali, é questão de fé, mas uma leveza e um contentamento nos envolvia. Isso era certo.

Varrer o terreiro é essencial. Quantas coisas juntamos durante o dia, a semana ou mês e quem sabe, até anos e não varremos? Às vezes precisamos de um cheiro de alecrim ou um ar novo de limpeza para melhorar nossa vida. As “visitas” acontecem a cada hora em nosso coração, por isso ele deve estar sempre limpo, livre de amarras, de mágoas, de qualquer empecilho que não nos deixem acolher os outros em nossa casa, em nosso interior. É preciso varrer o quintal. Minha mãe estava certa. O que sentimos quando o fazemos é sublime.

Quantas trilhas e espaços dentro de nós precisam de uma boa limpeza e fortalecimento? Eles desaparecem porque estão cheios de cacos espalhados, de resíduos que, facilmente, conseguimos se limparmos o nosso “terreiro interior”. Pense nisso!        


Foto: Lucélia Arantes

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Casa sacramento


Esta era a casa...
Morávamos, minha família e eu, numa casa simples, típica da época. Era a que meu pai, ainda solteiro, havia construído já com os olhos fixos em seu casamento. Talvez por isso até hoje, mesmo com a estrutura comprometida, ele utiliza os velhos cômodos para guardar utensílios, ferramentas e entulhar objetos que não mais utilizamos. Talvez por isso, também, faça questão de preservar da forma que está, mas nunca derrubá-la, por fazer parte de suas conquistas. Rubem Alves tinha razão ao dizer “quando as coisas despertam saudades e fazem brotar, no coração, a memória do amor e o desejo da volta, dizemos que são sacramentos” (Livro: Creio na ressurreição do corpo, Rubem Alves). 
Dessa forma, se aquela casa, apesar da simplicidade, faz brotar tantas emoções e sentimentos, é porque meu pai a considera como sacramento. E disso ninguém duvida. Quantas coisas, momentos ou pessoas tornam-se assim para nós. A casa de meus pais, a antiga, apesar de sua aparência velha, com algumas paredes já quebradas pelo tempo, é um lugar que considero “sagrado” por ter vivido ali os primeiros anos de minha vida e aprendido tanto. 
Tive oportunidade de estar lá dias desses e fiz questão de ficar por um momento dentro dela a observar cada detalhe. Meu antigo quarto, aliás, nosso, pois éramos muitos para poucas camas; a janela da cozinha de onde eu observava a marca do sol para saber o horário certo de me aprontar para a escola; a varanda onde ainda tem um forno grande à lenha que servia para assar biscoitos e tantas comidas gostosas. São sacramentos. Despertaram em mim uma enorme saudade e uma vontade de ficar, mas com direito a tudo como era antes. 
A vida é assim. Deus é assim: na simplicidade Ele se revela. Agradeço a meus pais por me mostrarem tudo isso. Que seu filho(a) possa te agradecer também um dia.


Foto: Lucélia Arantes

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A força do fogão a lenha


Era muito prazeroso acordar, todas as manhãs, com o cheiro do café preparado por minha mãe e pelo barulho que o papai fazia ao abrir as “tramelas” das janelas de madeira. Para quem nunca viu ou desconhece, tramela é uma pequena tábua que serve como tranca.
Tínhamos o costume de chegar na cozinha e sentar sobre uma das partes do fogão a lenha. No máximo, davam para ficar duas crianças, o que fazia surgir disputas pelo aconchego. Embora não coubessem todos, o fogão reunia a família. Ficávamos ao redor para tomarmos o café. Chamávamos de “tirijum”, derivado da palavra “desjejum”. Como era bom! Hoje bate a saudade daqueles encontros.
O fogão a lenha era a televisão ou o computador de hoje, porém com uma diferença enorme: olhávamos não uma tela, mas nos olhos uns dos outros. Podíamos falar sobre algo, discutir, contar piadas, fazer planos, sonhar e viver. Aprendíamos com as histórias que nossos pais nos contavam. Ouvíamos, pelo rádio, as primeiras músicas das manhãs. Elas, geralmente, falavam de coisas típicas da vida na roça,  de amores e desamores, de histórias bem contadas e, sobretudo, cantadas.
Para acender o fogo naquele tipo de fogão era necessário técnica. Não podia ser de qualquer jeito, senão o que se via era só fumaça para arder os olhos. Colocar um "pau de lenha"  mais grosso para que as chamas ficassem mais fortes e permanecessem por maior tempo era o básico. No decorrer do dia era só alimentá-lo com gravetos ou palhas ou sabugos de milho. Há uma teologia nisso. Pense bem.
Que saudades do fogão a lenha. Que saudades de nossos encontros que não acontecem com tamanha naturalidade e sem intervenções. Quem sabe, hoje, o espaço e o fogão sejam outros. Façamos acontecer!


Foto: Lucélia Arantes



quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Uma pausa para o silêncio


Tive uma experiência simples, porém, incrível.
Enquanto fazia um serviço em casa, precisei da ajuda de outra pessoa, afinal, eu não tinha tanta experiência assim. Para minha surpresa, quem veio para dar a mão foi um vizinho da casa de meus pais onde eu estava, à primeira vista, sem nenhuma diferença, porém, é deficiente auditivo, o que o impede de falar também. Talvez por isso tenha se tornado tão habilidoso e atento a tudo ao seu redor.
Mas o que, de fato, me chamou a atenção foi o silêncio. Como ele nos ajuda a trabalhar e olhar o mundo com mais calma e maior admiração. Executávamos a tarefa somente a partir de gestos, e me deliciei com a ausência de sons, inclusive da voz. Isso me ajudava a olhar mais e ouvir melhor. Pode parecer paradoxal, mas é assim mesmo. O silêncio nos faz ouvir o necessário. Outras coisas se tornam banais.
O barulho, hoje, não está somente nos ruídos externos. Imagens, frases, opiniões e julgamentos infundados são muito barulhentos também. E o que falar do estrondo produzido pelos olhos e mãos grudadas na tecnologia digital? A necessidade está na escuta. Nunca foi tão importante o ato de parar para ouvir seja a própria voz, a do outro, do mundo e aquela voz superior a quem muitos chamam de Deus.
Deixar de lado o barulho seja de sons ou não, trará muita percepção, principalmente aquela tão necessária para os dias atuais: a capacidade de acolher o outro, o diferente, ou até mesmo aquele tão próximo, da mesma casa, do mesmo quarto. O som, muitas vezes, desvia nossa atenção de alguns detalhes essenciais. Tantos dizem só saber trabalhar com um aparelho sonoro ligado, pois traz mais criatividade e destreza. Será que já provaram trabalhar ou criar no silêncio? O resultado pode ser surpreendente. Se já o experimentou e não conseguiu, o tempo não foi suficiente fazer a limpeza cerebral necessária. Tente.
A experiência com o deficiente auditivo me trouxe benefícios. Foi um presente. Ganhei uma chamada de atenção necessária para minha caminhada e a de tantos. Aprendi mais uma vez que a pausa para o silêncio pode nos fazer maiores, mais capazes e mais admiradores do que é simples e essencial: a vida.

Foto: Lucélia Arantes